Uma imensidão verde. São mais de 5 milhões de quilômetros quadrados que deveriam ser repletos de árvores.
Apesar de, no último ano, os alertas de desmatamento terem caído cerca de 35%, o desafio ainda é manter a floresta em pé.
E foi em Santarém, no oeste do Pará — onde o barrento Rio Amazonas encontra o transparente Rio Tapajós — que um pequeno negócio busca justamente reflorestar áreas degradadas. Assim surgiu a Ardosa, um viveiro administrado por Adna Azevedo e Sid Matos:
“O viveiro pegou uma demanda agora de produzir 200 mil mudas. Entre elas, a gente tem o jatobá, o paricá, andiroba e, desse lado aqui, a gente tá com o ipê-amarelo. Todas que vão para uma área de restauração ecológica que vai acontecer aqui no Pará mesmo. Eu sou veterinária e eu trabalhava com resgate de animais silvestres. Só que enquanto eu tava num estado, o Sid tava em outro. E a… e a saudade, né, que ele não tá perto da família, a gente decidiu abrir uma empresa. Na época, em 2017, quando a gente procurou o Sebrae para abrir essa empresa, a gente sentiu uma dificuldade muito grande de encontrar essas sementes, como castanha, cumaru. Era muito difícil. Nossa identidade é eu e ele. Fauna e flora junto. A ideia era que financiadores de qualquer lugar do mundo dissessem: ‘Sid, olha, eu vou te dar tantos mil reais, vai lá com as escolas, com as instituições e doe essas mudas.’ Só que o… o financiador pós-COVID desapareceu. Então começamos a divulgar o trabalho para vender as mudas para recomposição, para trabalhos de agrofloresta”, relata.
Adna e Sid uniram os conhecimentos adquiridos na universidade com os ensinamentos de toda uma vida.
E agora decidiram repassar para todas as gerações o valor de manter a floresta em pé:
“Eu tenho uma filha de 3 anos que ela vive correndo por aqui. E se eu tô mexendo numa muda, ela tá me corrigindo: ‘Mãe, não é assim, é de outro jeito.’ Então hoje a importância desse trabalho que a gente desenvolve é mostrar para ela que a gente precisa, sim, de uma floresta em pé pro futuro deles, não simplesmente só derrubar árvores para construir moradias, para construir outros tipos de negócio”, conta.
Uma mudança na forma de pensar a exploração da Amazônia, como explica a professora da Faculdade de Economia da USP, Maria Sylvia Saes:
“Tem um custo para manter a floresta em pé, porque eles mantêm o lago, mantêm a floresta, mantêm a biodiversidade, mantêm os animais. Mas eu acho que, ao mesmo tempo, é positivo, porque a gente vê que tem uma série de iniciativas que estão dando certo e a gente tem que incentivar que elas continuem assim, né?”, explica.
Frutas comercializadas
E tudo isso só é possível porque mostra que a floresta em pé gera renda, como é o caso do aumento da produção de árvores frutíferas da Amazônia como o açaí e o cupuaçu… A fruta que sai do pé do pequeno agricultor é vendida no centro de Santarém, no Pará.
É no entra e sai da Feira do Mercadão 2000 que encontramos barracas com frutas variadas. São cores e sabores típicos da Amazônia.
E foi aqui também que conhecemos o empreendedor Tiago Silva, dono da Boto Gelato. Todas as semanas ele passa por aqui para buscar produtos para o seu negócio. Da barraca do William da Silva vem a tapioca:
“A gente vende os… os derivados da… da mandioca, que são as farinhas, tapioca. Gratificante saber que o produto tá fazendo sucesso aí nas…”, fala.
Se do William vem os derivados da farinha, da barraca da Kelly Reis vem o cupuaçu, o jambo e outras frutas. Um impulso para pequenos produtores locais como ela.
“Quando eles levam nossas frutas para as empresas como sorveteria, pousada, fazem com que as pessoas que frequentam lá procurem por essas frutas aqui, que às vezes não tem, tipo, nos mercados, né?”, diz.
A Feira de Santarém existe há mais de 40 anos e é o maior centro de distribuição do Baixo Amazonas. São 245 associados que produzem frutas, verduras, legumes. Aqui da barraca da dona Kelly sai o jambo que vai virar sorvete lá na empresa do Tiago. Sorvete não, é gelato! Não é mesmo, Tiago?
“Sorvete é aquela coisa mais industrial, com mais gordura, com mais ar. O gelato, por sua vez, tem a preocupação de ser um produto mais fresco, mais artesanal, os frutos, os preparos das castanhas, uso de ingredientes frescos que a gente acabou de pegar na feira. Então ele não tem como ficar um ano na sua geladeira”, responde.
As técnicas utilizadas para fazer o gelato, por exemplo, mostram que a bioeconomia na Amazônia vai além do extrativismo, como explica o gerente na Unidade de Acesso a Mercados do Sebrae Nacional, Cadu Santiago:
“A gente tem, talvez no imaginário, né, da bioeconomia, da… da biodiversidade, muita questão extrativista na Amazônia. Mas a gente tem hoje a possibilidade de fomentar negócios inovadores que trabalham com essa mescla do saber ancestral com conhecimento científico para agregação de valor, para geração de produtos mais de vanguarda tecnológica relacionados aí a alguns setores como fármacos, cosméticos, enfim, próprios superalimentos, né, alimentos mais saudáveis e que têm um apelo eh de inovação e um apelo mercadológico importante”, diz.
Conquistar um mercado que conhece pouco dos produtos amazônicos… Foi por isso que Tiago criou, há 10 anos, a Boto Gelato. Ele aposta na junção de sabores locais, muitos inusitados. O mais vendido por aqui: um gelato que leva o nome do patrimônio imaterial do Brasil, o Carimbó.
“A gente usa tapioca granulada, geleia de cupuaçu, castanha-do-pará e flocos de coco. São vários ingredientes, é um Carimbó, uma mistura muito doida. O nome dos nossos produtos também são eh homenagens que a gente dá para um pedaço da cultura do… do Pará e da Amazônia. Tem tudo aqui. Quem come o Carimbó também tem que dançar, viu? Já tem música de fundo do Carimbó, né, enquanto você come?”, aponta.
Com produção de Acácio Barros e sonoplastia de Egiberte Martins






























